A "Boutique
de Pães", onde tomávamos
café-da-manhã.
Não é o ângulo
reto que me atrai
nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas
do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein.
Oscar Niemeyer, em As curvas
do tempo, traduz a sensação
exata de estar dentro do Copan. Suas curvas
são intermináveis: seja no vai-e-vem
dos passantes por suas galerias, no sobe-e-desce
dos elevadores por seus 32 andares ou nos
pensamentos que nos acometem a todo instante.
Reciclagem é a palavra:
temos um vizinho hoje, podemos não
vê-lo mais amanhã. No térreo,
são tantos os porteiros que, apesar
de boa fisionomista, ainda me confundo. Puxo
papo com o mal-humorado e permaneço
calada ao lado do tagarela. Nos elevadores,
além daqueles já conhecidos,
há sempre uma cara nova, um rosto ainda
desconhecido. Alguém que está
acordando quando estou indo dormir ou alguém
que volta para casa quando saímos para
a Faculdade.
O que não significa
que os dias sejam descartáveis. As
cenas das crianças jogando bola na
calçada, o pão de queijo e o
cafezinho reconfortante do Café Floresta,
a Feirinha de Artes da República aos
domingos que se mudou para a Ipiranga, os
cafés da manhã na Boutique de
Pães, as conversas na Pizzaria Copan,
as cervejas no Café Baloon, as brincadeiras
nos corredores... Pelo contrário, são
inesquecíveis. Curvas que levaram Niemeyer
a pensar o mundo como um lugar mais justo,
curvas que nos levam a perceber a grandeza
de simples paredes, que temporariamente nos
abrigam nessa incrível cidade.